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CAPÍTULO 1:
A HISTÓRIA DE UMA MÍSTICA RELUTANTE

Em 1971 tive uma experiência de tanto significado que entendê-la tornou-se o trabalho de minha vida. Durante o período de uma semana, naquele ano, fui inundada por uma transmissão de insight e de acesso a domínios superiores de conhecimento. No decorrer do processo recebi o dom do despertar espiritual e de clariaudiência, que não tive jeito de integrar ou compreender quando a experiência terminou. Hesitante a princípio, temendo o que as pessoas pudessem pensar e encarando a possível alienação de minha família devido à voz que comecei a ouvir em minha cabeça, finalmente tomei a única decisão que podia ter tomado. Decidi devotar minha vida à interpretação dessa voz e ao uso do conhecimento que ela compartilhara para ajudar as pessoas em sua própria iluminação.

Eu o convido a considerar a minha história como referência para validar os ensinamentos em capítulos subseqüentes deste livro, mas não como uma indicação do que você possa ou deva vir a vivenciar como resultado da leitura ou do uso das técnicas de O Casamento do Espírito. Minha jornada foi um produto dos tempos e circunstâncias em que vivi. As maiores chances são de que a sua viagem através do caminho da iluminação não seja igual à minha; e isto é como deve ser.

UMA EXPERIÊNCIA MÍSTICA DE RUPTURA

Eu fui criada na África do Sul – um país devastado pela segregação racial. Após ter me formado na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, com grau de bacharel em Belas Artes, assumi uma carreira como pintora. A pintura era minha paixão e era algo que sempre tinha vindo a mim com facilidade. Desde a infância, a arte havia servido como veículo de expressão do inexprimível. Mesmo quando criança experimentei estados, visões e percepções alteradas que tinham como único escape aceitável a expressão de minhas mãos na tela.

Foi apenas mais adiante, através de percepção tardia, que vim a compreender conscientemente como cada visão e pintura subseqüente eram um presente dado a mim pelo meu inconsciente, uma experiência de aprendizado que me ajudaria a preparar-me para minha vida como mística. Estados alterados freqüentemente aconteciam enquanto eu estava pintando ou mesmo quando estava contemplando pinturas. O entrelaçar-se da arte e do misticismo promoveu em meu interior um desejo crescente de encontrar maior compreensão da natureza da consciência em si.

Enquanto pintava em meu estúdio de arte numa manhã de 1971, entrei em um estado alterado. Pareceu ter sido estimulado como uma resposta externa a uma discussão com amigos em um jantar na noite anterior. Tínhamos acabado de comer e estávamos envolvidos em uma discussão espinhenta sobre arte e ciência. Os dois homens à mesa, um deles meu marido, consideravam-se cientistas; a minha amiga e eu éramos artistas. Na época, parecia uma discussão estúpida sobre os méritos da arte versus a ciência, mas ainda assim havia tocado algo muito profundo em meu interior. Eu possuía clareza incomum naquela noite, e podia ver que não havia diferença intrínseca entre as duas. Elas advinham da mesma fonte, expressavam a mesma essência. No cerne elas eram a mesma coisa.

Ver dois meios aparentemente opostos de percepção do universo, um baseado em intuição e outro baseado na lógica empírica, como uma mesma coisa, era uma idéia extremamente radical para nós naquela época. Ainda assim a verdade disto estava clara como um cristal para mim naquele momento. Foi a minha absoluta certeza a respeito dessa igualdade que me fascinou tanto na época. Entretanto, não importava o quanto tentasse, eu não conseguia explicar aos outros o que estava vendo. Subitamente tornei-me dolorosamente consciente de que todos nós, através da discussão da supremacia da arte ou da ciência, estávamos não apenas perdendo o cerne da questão, mas também estávamos envolvidos em várias lutas polarizadas. Masculino-feminino, certo-errado, real-imaginário. Por algum motivo, naquela noite, aquele dualismo era mais do que eu podia suportar. Tornei-me muito agitada e depois bastante desconsolada.

Na manhã seguinte, em meu estúdio, após ter passado a maior parte da noite acordada atracando-me com o que havia visto, meu estado mental subitamente mudou. Minha mente abriu-se, tornando-se cristalina e vasta. O tempo parecia haver parado. Compreensões a respeito da discussão da noite anterior inundaram minha consciência. Dei-me conta claramente de que meus conhecimentos da noite anterior eram a verdade. Essa percepção da verdade era tão profunda que fez com que meu coração se acelerasse, e vivenciei emoções que nunca havia sentido. Eu estava no que agora sei ser um estado de consciência de unidade, um estado para o qual não tinha qualquer ponto de referência na época.

Naquela manhã, enquanto os insights continuavam derramando-se através de minha consciência, eu sabia que precisava escrever. Via as resoluções de todas as minhas frustrações da noite anterior, obtinha uma compreensão muito clara delas, o que me permitia verbalizá-las em meu diário. Na medida em que as páginas iam se acumulando, a unidade inata que se esconde por trás de todas as dualidades que conhecemos neste mundo tornava-se cada vez mais clara. Isto deu início em minha mente às compreensões dos conceitos fundamentais por detrás dos ensinamentos de O Casamento do Espírito. Eu havia sempre sentido uma presença mística em minha vida, mesmo quando criança, particularmente associada à minha pintura – mas essa transmissão intensa e direta de informação sobre a unidade era algo novo, e tomou a minha atenção por completo. Eu estava sendo compelida a estar completamente presente na experiência.

Durante uma semana de acesso a esse estado de consciência elevada, escrevi por volta de trinta páginas e criei duas pinturas. Uma pintura era a de um anjo alado, pintado como se estivesse acima de mim. A outra era a de uma mãe segurando uma criança. Ambas eram de assuntos que eu nunca antes havia abordado. As duas pinturas emergiram sem qualquer esforço, quase como se  outra pessoa estivesse usando meu corpo para pintá-las. Eu sei agora que as pinturas foram outro presente do meu Eu Superior, mensagens do estado de unidade. As pinturas teriam papel significativo em um drama posterior.

Cada manhã durante esta semana em particular eu acordava percebendo que o estado alterado ainda estava presente e, quando finalmente se abrandou, fiquei tomada de pesar pela perda. Entretanto, ainda me restava o legado da experiência. Eu não apenas tinha 30 e poucas páginas de escrita e as duas pinturas, como também essa experiência de abertura deixou-me com um guia interior claro e intermitente – guia que permaneceu em minha experiência do dia-a-dia.

Três difíceis semanas se passaram enquanto eu tentava fazer sentido do que havia acontecido neste evento extraordinário. Eu vacilava entre exaltação e depressão, imaginando por vezes se não estava ficando maluca, imaginando porque tudo isso estava acontecendo comigo. Então descobri que estava grávida de minha primeira filha. Presa na excitação deste fato, coloquei as páginas preciosas no armário, empurrei os eventos que elas gravavam para o fundo de minha mente e, temporariamente, esqueci-me por completo de minha experiência. Na época, não havia espaço para elas em minha vida e não havia tempo para concebê-las. Um mês mais tarde, fui tomada pela curiosidade, e tentei reler meus apontamentos. Para meu desânimo, os escritos estavam todos ininteligíveis. Os conceitos, óbvios para mim na época, agora não me diziam nada. Devido à perda do estado de unidade, eu não tinha um contexto no qual encaixá-los. Poderiam muito bem ter sido escritos em grego. O mundo parou por um momento, e então começou a girar enquanto meu sentido de realidade entortou-se. Meus pensamentos correram fora de controle enquanto me sentia presa na crença de que eu havia passado uma semana escrevendo besteira. Agora minha mente se entregou ao medo de que talvez eu estivesse ficando louca. Tornando-me crescentemente desconcertada e paranóide -  e para meu arrependimento mais tarde - joguei fora toda a dissertação.

TORNANDO-SE UMA ‘MÍSTICA DE ARMÁRIO’

Muito da paranóia e do medo que me fizeram destruir os escritos que descreviam a experiência mística estavam relacionados a um senso de apreensão  sobre como meu marido conservador reagiria. Inicialmente, apesar de estar relativamente confortável com a idéia de receber um guia interno, havia épocas em que questionava minha própria sanidade. Em 1972, logo após o nascimento de minha filha, quando finalmente contei a meu marido sobre as experiências místicas que eram agora comuns em meu dia-a-dia, sua reação reforçou meus mais profundos medos. Ele havia recentemente feito uma eletiva médica em um hospital para doentes mentais, e me garantiu que as únicas pessoas que ouviam vozes em suas cabeças eram as mentalmente doentes.

Nenhum de nós havia ouvido falar de canalização ou de outras formas de comunicação divina naqueles dias e, quando vi o olhar de medo em seu rosto, pensei que ele me internaria em uma instituição para doentes mentais, se eu persistisse. Devido ao medo, nunca mais mencionei minha experiência a ele ou a qualquer pessoa em nosso círculo de conhecidos. Por um longo tempo, eu vivia um tipo de vida dupla – a vida em minha cabeça e a vida em meu corpo. Meu corpo continuava vivendo a vida de uma esposa de médico, dirigindo no trânsito, freqüentando eventos sociais e cuidando das crianças. Eventualmente o desconforto de negar meu eu interior cresceu tanto e minha confiança no fato de que eu não estava louca era tão forte, que finalmente decidi sair do armário. Esse processo foi gradual e doloroso e marcou também uma época de muitas mudanças exteriores em minha vida.

UM PAÍS MERGULHADO EM POLARIDADES

Tornei-me adulta sob o regime opressivo do apartheid – em uma época em que sua ideologia de separação entre negros e brancos havia atingido um ponto de massa crítica e quando estava claro para a maioria das pessoas que algo monumental estava para acontecer em breve. Censura sufocante e regras rígidas sobre como as pessoas – negros e brancos – deveriam viver suas vidas haviam por um longo tempo sido parte integral da consciência coletiva da nação. No verão de 1975, quando acordei de um sonho e disse a meu marido que tínhamos de sair do país, ambos percebemos instintivamente que uma época de grande transição e convulsão social estava para começar.

Eu não posso imaginar um exemplo mais perfeito de extrema polarização dentro do qual deva nascer um místico. Meus sentimentos depressivos e de desamparo de toda uma vida em torno das injustiças do sistema apartheid em meu país – sentimentos compartilhados por muitos de meus compatriotas – deveriam ser substituídos por esperança, compaixão e amor se algum dia as coisas fossem mudar. Mas como? O “como” veio a mim diretamente através da intervenção divina, e de uma maneira que desafiava frontalmente a minha crença de que uma pessoa não faz a menor diferença. A voz que havia vindo até mim em 1971 me guiava a manter a intenção, esperança e crença na possibilidade de paz na África do Sul. Eu compreendi que outros estavam sendo instigados a fazer o mesmo e que as intenções individuais e unificadas de apenas um pequeno grupo de indivíduos seriam o bastante para trazer mudanças significativas. Mais tarde eu vim a entender que em um ponto de massa crítica, quando um certo número de indivíduos mantém a mesma intenção, a mudança se manifesta na totalidade da consciência humana. Isso foi o que eu finalmente vi acontecer na África do Sul, à medida em que o fim da segregação abriu espaço para um novo regime.

Duas semanas após o meu sonho profético, meu marido recebeu um convite para uma bolsa de estudos de pesquisa na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA). Uma semana após ter aceitado a posição, tumultos estouraram em Soweto, onde meu marido completava sua residência. Foi o começo da revolução. Muitos dos primeiros tumultos foram protagonizados por crianças de idade entre 8 a 18 anos, fato a princípio ocultado pela imprensa. A polícia abriu fogo contra alguns dos grupos, e muitas destas crianças foram mortas ou gravemente feridas. Foi uma época brutal e amedrontadora para todo o povo da África do Sul. Eu teria me sentido extremamente culpada por ter saído, não fosse pelas vozes de meus guias. Eles insistiam para que eu viesse para os Estados Unidos buscar meu crescimento espiritual, para que minhas preces pela paz na África do Sul pudessem juntar-se a muitas outras, daquele país e em todo o mundo, que também rezavam pelo fim da segregação. Seriam aquelas vozes individuais unidas que ajudariam a, eventualmente, mudar o equilíbrio de energia, a carga magnética da experiência, em favor da dissolução do velho regime. Através dessa experiência comecei a ver que se as pessoas acordassem para sua natureza verdadeira, divina, interior, a totalidade da consciência humana poderia passar pelo tipo de evolução de consciência que parece ser o que é necessário para nós sobrevivermos como uma espécie neste planeta. Desde aquela época, a intenção por trás de meus ensinamentos das técnicas de O Casamento do Espírito tem sido ajudar a elevar a consciência.

SAINDO DO ARMÁRIO

            Após o nascimento de minha filha, em 1972, fui tomada por profunda inquietação. Eu sabia que estava procurando algo, mas não sabia o que era e onde encontrá-lo. A clareza da experiência de unidade de 1971 se fora. Sabia que o que estava procurando era relacionado com a chegada dela e, de certa forma, ligado ao que deveria dar a ela. Na força desse pequeno conhecimento, tornei-me  disponível para uma mudança interior e nasceu em mim a buscadora espiritual. Seguiu-se, três anos mais tarde, o nascimento de meu filho. Sua concepção aconteceu numa época em que eu estava justamente sendo iniciada na meditação formal e desta vez meu esperado bebê anunciou sua chegada sob a forma de um sonho. Percebi que estava acontecendo uma tremenda sensibilização de minha consciência e de minha visão, enquanto observava esse sonho. Eu estava começando a sintonizar-me com um nível mais sutil. Daí perceber o significado transmitido no sonho com meu filho ainda não nascido – uma percepção que teria sido sutil demais para minha consciência registrar no passado.

Meu casamento não sobreviveu ao processo – um processo cada vez mais pontuado por períodos de intensa meditação, estudo e trabalho interior. Meu marido e eu nos afastamos cada vez mais um do outro. Após a experiência de unidade em 1971 e durante o processo de separação e divórcio, me vi atraída pelos escritos de autores que se encontravam no limiar de uma nova psicologia espiritual. Trabalhos tais como de Carl Jung, Roberto Assagioli (Psicossíntese), Arthur Janov (O Grito Primal), Fritz Perls (Dentro e fora da caçamba do lixo) e Eric Fromm (A Arte de Amar), faziam eco com os ensinamentos interiores que eu experienciava na época. Eles  ajudaram-me a manter os pés no chão no que se refere ao pensamento e à prática, assim como me motivaram a continuar meu próprio crescimento espiritual.

No começo dos anos 80 fui guiada para trabalhar com dois professores de transformação por um período de aproximadamente quatro anos. Meus filhos foram viver com o pai e em 1986, após ter-me tornado crescentemente consciente de que estava elevando minha capacidade de conexão espiritual, entrei em um período que foi, em sua concepção e forma, bem próximo das experiências descritas em cavernas no Himalaia. Muitas pessoas estão familiarizadas com esse conceito de iogues indianos e tibetanos – como é o caso do grande santo asceta tibetano, Milarepa – que fala da retirada para cavernas distantes com o objetivo de viver vidas reclusas de meditação e austeridade em busca de iluminação. A minha experiência de caverna se deu em uma das mais populosas áreas do oeste de Los Angeles. Freqüentemente me perguntei porque fui guiada para me retirar em um lugar tão estranho, e finalmente decidi que, se não por outra razão qualquer, meus guias tinham um ótimo senso de humor. Isto deve ter acontecido, provavelmente, porque eu tinha conceitos rígidos sobre cidades grandes. Acreditava que uma área grande e densamente populosa seria o último lugar em que eu, ou qualquer outra pessoa, pudesse despertar.

Por um período de dois anos em um pequeno apartamento perto da confluência de duas grandes estradas, no lado oeste de Los Angeles, comecei uma prática espiritual extensiva e solitária de completa reclusão e profunda meditação. Por dois anos eu trabalhei em um desdobrar, passo-a-passo, de despertar para o mesmo estado que eu havia atingido tão brevemente em 1971. Ele moveu minha consciência da memória de um estado alterado temporário, obtido no início de minha busca, ao estado natural solidamente firmado no qual eu agora vivo permanentemente.

Também durante o tempo de reclusão de 1986-88, pude ver um dos pedaços intrigantes e surpreendentes do desdobramento de meu próprio destino. Dei-me conta de que a experiência de 1971 também havia sido uma conexão com a alma de minha filha, ainda não nascida na época. As pinturas do anjo e da mãe com a criança que haviam emergido durante aquela semana estavam me avisando de sua chegada iminente em minha vida e, mais importante, de que o estado em que eu me encontrava era sua mensagem para mim. Surpreendente como possa ser, havíamos feito um acordo para despertar-nos mutuamente. Eu vi e compreendi claramente que ela era o ser angélico que, na época, estava me ajudando a me lembrar do estado de consciência de unidade.

Essa noção  de ajuda divina é comum em ensinamentos místicos, especialmente entre os tibetanos. O acordo entre eu e minha filha era esse: quando eu estivesse presa no esquecimento desta vida e ela estivesse fora do corpo, ela deveria lembrar-me de quem eu realmente era – de uma maneira mais abrangente e essencial do que eu tinha consciência até então. E quando ela tivesse se manifestado,  e estivesse presa nas limitações do mundo e do corpo e houvesse se esquecido de suas origens, eu estaria livre o bastante para mostrar-lhe o caminho e ajudá-la a despertar. Ela nasceu em fevereiro de 1972, exatamente nove meses após meus sete dias de consciência unificada.

PONDO TUDO EM ORDEM

Todos nós temos experiências místicas memoráveis, estejamos ou não totalmente conscientes delas ou escolhamos ou não admiti-las. Infelizmente nossos estados alterados freqüente e rapidamente caem no esquecimento ou são deixados de lado quando ameaçam nosso senso de realidade existente (e o fazem quando não temos maneira de integrá-los em nossa consciência naquele momento). Entretanto, no meu caso, não pude escapar da minha experiência com facilidade porque eu a havia escrito, tornando-a real e concreta, apesar de aqueles escritos não mais existirem. Eu havia tentado me livrar da experiência jogando as páginas fora, mas ainda as podia ver claramente em minha mente. Elas haviam sido gravadas em minha consciência. Por vontade do destino, a premissa básica de unificação de opostos e a volta à unidade nunca mais saíram de minha mente consciente.

Desde então vim a saber que todos os seres humanos são inerentemente capazes de acessar estados muitíssimo diferenciados de consciência. Isto faz parte de nossa capacidade para consciência multidimensional. Entretanto, geralmente não é possível para alguém, em um específico paradigma de consciência, ter o mais remoto entendimento de outro paradigma ao mesmo tempo. É possível entrar e sair de modos diferentes de percepção da noite para o dia, mas é muito mais difícil compará-los – algo que necessitaria de uma integração física, mental e emocional de elementos freqüentemente paradoxais. Na maioria das vezes, compreendemos certos estados de consciência apenas quando estamos imersos neles, mas não os compreendemos quando estamos fora deles. Este é um conceito metafísico razoavelmente básico que ajuda a explicar o porquê de minhas 30 páginas de escrita subitamente pareceram indecifráveis para mim,  quando voltei à realidade deste mundo.

Apesar de, como artista, fazer uso de imagens que vieram a mim durante estados de sonhos, eu não tinha qualquer entendimento formal de metafísica enquanto uma disciplina. O que sempre esteve presente para mim, antes, no entanto, era um sentimento de conexão com a natureza e um sentido mais poético de meu ser interior. Ainda bem cedo, eu já me identificava com maneiras de compreensão que estavam fora do senso da realidade e do condicionamento dados a mim por minha família. Essa foi uma das razões pelas quais minha vida como mística foi tão facilmente assimilada por meu ser consciente. Outro motivo pelo qual a vida de mística estava de acordo comigo era relacionado com o fato de que eu estivera presa em um relacionamento de domínio e submissão com meu pai. Ainda  que estar submissa à vontade dos outros tenha sido um comportamento que tive de desaprender e processar bastante por toda a minha vida adulta, a princípio me permitiu entregar-me completamente às vozes e aos mestres que encontrei. As suas transmissões requeriam compromisso total e absorção impessoal de minha parte – algo que teria sido difícil de conseguir para uma pessoa de vontade mais firme; e assim é freqüentemente com certos aspectos de nossas personalidades e eventos específicos em nossas vidas – eles estão lá por motivos que raramente entendemos na época. No verdadeiro espírito de polaridade, o que parece estar tomado por energias negativas em um momento, mostra-se fazendo um impacto positivo no próximo, e vice-versa.

Sabendo agora que há uma perfeição inerente a todos os eventos de nossas vidas, dou-me conta de que foi adequado eu ter jogado fora todos os escritos. Apesar de me arrepender por não tê-los guardado, não senti que a informação tivesse sido perdida. Pedaços-chave de informação prenderam-se a mim, incluindo a última sentença da composição sobre a unidade de todas as coisas. Eu também tinha a recordação vívida do tema central dos escritos – de que um processo de juntar ou unificar todos os opostos polares, inerentes a essa vida dualística, nos traz para dentro da vasta unidade, que é a verdadeira origem e constituição da vida.  Foi a memória desta unidade, vivenciada diretamente durante uma semana e que agora conheço como o estado unificado, que se tornou a motivação para a compreensão do estado alterado que eu havia experimentado.

Encontrar a unidade de consciência fundamental por detrás de todas as dualidades da vida é iluminação – nosso estado real de consciência. É esse o tema deste livro. Todos nós podemos vivenciar esse estado de iluminação através da integração das cisões dualísticas ou polarizadas em nossa personalidade. Em outras palavras, o que meu inconsciente estava me mostrando naquela semana era:

Se integrarmos as cisões dualísticas e polarizadas em nossa personalidade,

poderemos conhecer direta e palpavelmente a unidade

que realmente somos além da personalidade limitada.

Esses ensinamentos, ministrados no decorrer do tempo, tornaram-se os métodos primários de integração que utilizei em mim mesma e que me levaram à experiência, sempre crescente, da unidade de todas as coisas. Essa unidade é nossa natureza eterna verdadeira. E o desejo de conhecê-la é a fonte do anseio no interior de cada ser humano.

A consciência unificada possibilita-nos trazer os eventos ao círculo completo de nossas vidas. Ansiamos por completude em nossas vidas, pelo fechamento de eventos e pensamentos, na esperança de que eles revelem algum aspecto da verdade a respeito da estrutura da realidade e de nossa posição nela. A cultura ocidental especialmente, com sua pesada confiança na progressão linear e lógica, encontra pouco conforto em uma progressão aparentemente linear de uma vida em direção à morte e adentrando um vazio eterno sem sentido. Nós nos vemos vivendo dentro dos limites confinados do tempo-espaço, e freqüentemente pensamos na vida como uma forma de sofrimento, devido à percepção de sua natureza como uma progressão aleatória em direção a um final desconhecido. Contrastando  com este ponto de vista, ver círculos maiores de significado em funcionamento dentro da estrutura da vida humana nos permite trazer fechamento e significado espiritual à viagem. Cavar em nossas mentes subconscientes, atando os fios soltos de lições e significados esquecidos e liberando padrões destrutivos de comportamento, são práticas que estão no coração dos ensinamentos de O Casamento do Espírito.

SUGESTÕES PARA TRANSFORMAR A TEORIA EM PRÁTICA

  • Arrume um diário e mantenha-o especificamente para registro de todas as suas experiências místicas e espirituais. Concretizando esses presentes preciosos através da escrita, você os traz desde o reino das idéias e ausência de forma para o reino da forma. Você não apenas os torna mais claros para si mesmo, como também os torna mais plenos e expandidos. Começa a ver muito mais da experiência e a absorver níveis mais profundos do dom que o Espírito está  lhe  oferecendo. O diário ajuda a preservar esses presentes, em vez de permitir que eles sejam cobertos pelas areias do tempo e perdidos nas brumas da memória.
  • Tente lembrar-se de experiências místicas e espirituais passadas, mesmo da infância. Recapitule as experiências e escreva sobre elas com o máximo de detalhes possível no início de seu diário. Tenha a certeza de que sejam datadas, mesmo que aproximadamente. Datá-las ajuda mais tarde na compreensão dos ciclos maiores de mudanças. A história tem uma maneira de repetir-se, e mudanças de percepções que aconteceram há anos atrás serão revisitadas no futuro. A vida é uma espiral; nós voltamos para onde estávamos, mas em um nível mais alto de vibração.

 



This is an excerpt from The Marriage of Spirit, by Leslie Temple-Thurston with Brad Laughlin.

ISBN# 0-9660182-0-6

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